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“A Festa de Mulundús”, de Odorico Maia, traz narrativa que vai além de um simples relato festivo

Por: Bookeiro Publish Em: 18/08/2019

Festa em Mulundús (1953)
Na crônica “A Festa de Mulundús”, publicada no antigo periódico “Maranhão”, em 1947, o então colunista Pe. Odorico Maia faz uma narrativa sobre a sua visita à Mulundús, uma comunidade rural de Vargem Grande, no interior do estado do Maranhão, para acompanhar de perto as festividades em honra a São Raimundo Nonatos dos Mulundús, o vaqueiro que se tornou santo pela fé do povo e que hoje tem uma das maiores festas religiosas do país. O texto fora dividido em três partes, onde o autor narra com detalhes como foi a sua trajetória até o local da festa. A publicação, aos olhos da crítica, passa além de uma simples matéria jornalística, para um texto que, se levado a fundo, traria uma excelente narrativa para um livro rico em informações.

A leveza da escrita e a forma de expor as informações, são detalhes que prendem o leitor a uma viagem no tempo por meio da leitura, a fim de conhecer mais sobre a festa do Santo  Vaqueiro que hoje possui milhares de devotos pelo mundo todo. Confira os textos completos na íntegra:

Parte I

A primeira vez que fui a Mulundús, no ano de 1923, acompanhava D. Otaviano Pereira de Albuquerque, então arcebispo do Maranhão, que quis ver pessoalmente o local e o movimento de romeiros. O capuchinho Frei Ângelo de Vignola, especialmente convidado, fazia parte da comitiva do metropolita, com a missão principal de pregar às missas.

Chegamos à povoação Pirapemas após ótima viagem de trem, e, depois de uma refeição gentilmente oferecida pelo chefe de família que nos recebeu. Aguardamos as alimárias que nos levariam à capela na margem esquerda do Rio Itapecurú. Montamos às 4 horas da tarde. Frei Ângelo, bom cavaleiro, tomou a dianteira, animadamente, mas, antes de correr duzentos metros, encontrou um casebre com um caibro muito desviado da parede ameaçando-lhe as barbas. Sem poder moderar a marcha do burrinho árdego, declinou o corpo para trás com tanta má sorte que rolou de sela e foi ao chão de cabeça para baixo. Levantou-se rapidamente, retomou a sela quase de um pulo, e, para não ouvir as risadas dos espectadores, deu de esporas no burro e disparou no encalço de D. Otaviano, que já estava longe, rindo da primeira peripécia cômica da excursão. Mal cavalgamos meia hora, avistamos a capela de Pirapemas e o casario pouco numeroso, acompanhando sinuosamente a margem do rio. Naquele lugarejo demoramos dois dias. Investido nas funções do vigário, entrei, pela primeira vez, em contato com a alma e o coração do povo simples que chamamos "matutos" ou "gente do mato". Que boa gente! Vale a pena o trabalho de um padre catequizando, pregando, confessando, batizando, casando e conversando com campônios tão ingênuos, tão sinceros e tão livres de artifícios.
Ouvem-se coias destas:
- Menina, tu ainda não tomô o Senhor? Marcha já pr'a cá, sinão tu não toma ele.
- Mamãe, a barba do frade parece barba de cabra!
- Cala a boca, doido! Tira o cão da boca, menino! Vejam só! Tomara que ele escute.
- Joana tá com o tal de bartacan. Cruz! Credo!
Uma mulherzinha perguntou-me:
- Sinhô, padre, vai tê lumaquirpe?
Compreendi que a pobrezinha se referia ao eclipse da lua.
- Não, minha senhora, mesmo que houvesse, você não devia ter medo. A lua não poderá nunca cair encima de nós.

Chegou a hora da segunda excursão a cavalo em burro para Vargem Grande. As alimárias esperavam-nos do outro lado do rio. D. Otaviano, para montar num ginete muito fogoso, experimentou um certo nervoso; mas, depois de bem acomodado na sela, mostrou-se da raça dos napoleões dos pampas.
Frei Ângelo tentava mostrar-se garboso cavaleiro, e eu, apesar de filho do sertão, ia sempre um pouco atrás, para rir melhor das peripécias que esperava.

Viajavam conosco o Emídio, cozinheiro do Palácio Arquiepiscopal, preto, gordo e sem agir idade, sofrivelmente montado num burro que não era de primeira ordem. Concluí pela cara do cozinheiro que ele não era amigo de andar a cavalo. Desajeitado na sela, suando por todos os poros, com os beiços queixosos e a testa alumiando, era um modelo de cavaleiro irrisório. Fizemos uma parada às 11 horas, à sombra de grandes árvores entre poucas casas de palha. Não sei donde saiu um almoço esplêndido, que fez honras aos estômagos cansados de reclamar. Retornamos a viagem às três da tarde, e eu mostrei-me cavaleiro da última classe. Cheguei a Vargem Grande com um atraso de mais de sessenta minutos, debaixo das risadas de Metropolita, de frade, de seminarista e, até, do cozinheiro, que por sua cor de graxa era chamado de Sér Shuartz.

Parte II

Vargem Grande, em 1923, era uma pequena cidade velha, de casarões sombrios, grandes quintais e uma regular matriz, bem cuidada, no ponto mais alto de uma praça larga e sombreada de carnaubeiras. Era bem o tipo de vetusta cidadezinha sertaneja. Gente simples, hospitaleira e boa. Cercava o arcebispo e os sacerdotes de muitas atenções e venerações. O coronel José Alexandre de Oliveira, velho chefe de família, respeitado e estimado como o homem por excelência do lugar, declarou-me que a localidade parecia ter uns quatrocentos a quinhentos habitantes, visto contar um pouco menos de cem casas.

No dia seguinte, a terça parte da população assitia à missa de D. Otaviano e ouvia sua palavra cheia de doutrina. À noite, Frei Ângelo pregou um de seus proveitosos sermões de missão. Acabada a bênção, uma cinquentena de pessoas permaneceu na igreja, esperando confessar-se. Assentei-me na sacristia, perto de uma cômoda, em uma cadeira baixa, e não tardou que uma mulher aparecesse com um garoto de seus treze anos:
- Tá aqui meu fio prá se confessá. Tenha paciença cum ele, que é muito apoucado. 
Confesse ele, por bondade. 
Chamei o pequeno para perto de mim e notei um rosto tão rude, tão inculto, tão simplório, tão incapaz que adivinhei o fracasso. Tivemos o diálogo que aí vai:
- Quantos anos tens?
- Num sinhô!
- Vamos nos benzer.
- Num sinhô!
- Em nome do Padre...
- Num sinhô!
- E do Filho...
- Num sinhô!
- E do Espírito Santo...
- Num sinhô!
Pasmei de tanta ignorância e rudeza. Chamei a mãe do pequeno.
- Senhora, seu filho é incapaz de confessar.
- Ora, home! Eu queria qui ele se confessasse.
- Pois olhe, veja como ele é incapaz de se confessar.
E recomeçamos a peleja cômica.
- Diga comigo...
- Num sinhô!
- Eu pecador...
- Num sinhô!
- Me confesso à Deus...
- Num sinhô!
- E a vós, Padres...
- Num sinhô!
- Veja, minha senhora, seu filho é muito tolo demais. Não tem instrução nenhuma para se confessar!
- Tá bom! Ô misera! Menino do mato e bicho num tem diferença.
Despachados o pequeno e a mulher, vieram vários rapazes e pais de família, felizmente menos rudes que o garoto do “Num sinhô”.
Dei aula de catecismo a algumas dezenas de crianças e mocinhas, ensaiei cânticos e preparei o pessoal para o Sacramento da Crisma.

Debaixo das copadas mangueiras, atrás da matriz, espaireci alguns quartos de horas inesquecíveis.
- Menina, você tem um bonito cãozinho.
- Cruz! Credo! Eu nunca quis andar com aquele nem sei qui diga!
- Seu cãozinho está querendo brincar com você.
- Cãozim? Eu não tenho cãozim, não! Eu nunca quis sabê de nem sei qui diga, p'ra coisa nenhuma.
A menina não compreendeu que eu me referia ao esperto cachorrinho que a acompanhava.
Tirei proveito da simplicidade da tolinha.
- Você anda acompanhada de uma cãozinho mimoso.
- Ave! Ave! Ave! Eu não tenho nada com aquele “tinhoso”. Eu não chamo nem pelo nome dele. - e retirou-se quase em disparada.

Demoramos mais dois dias em Vargem Grande. No dia 28 de agosto, pelas 8 horas, possantes animais, visivelmente ajaezados, levara-nos a Mulundús.
As estradas eram boas. Meu cavalo, bom andador, acompanhava de longe a marcha velo da caravana de D. Otaviano: Frei Ângelo, seminarista Clotário e bons amigos que engrossavam o séquito do arcebispo.

O Emídio vinha um pouco atrás de mim. O sol dardejava seus raios sobre nós, e o preto suava, e a testa reluzia, e os beiços elasteceram: figura digna de um instantâneo fotográfico.
Após três horas de árdua viagem, avistamos umas casas de palha, uma loja e rostos amigos que nos fizeram desmontar. E não tardou o desejado café cheiroso. A conversa foi curta. A segunda parte da demanda dos Mulundús foi um tanto preguiçosa, devido ao sol e ao mal estar do Emídio.
Conversei bastante com o preto. O sol esquentava cada vez mais. Raramente uma brisa amenizava o ambiente, comparável ao ar da costa d'África. Mais uma hora de marcha penosa e vagarosa, e avistamos Mulundús.
O pó subia e voluteava no espaço, produzido pelas correrias de inúmeras gentes exibindo cavalos, éguas, burros, jumentos, ridiculamente ajaezados, e parece que, até, um boi cavalo apareceu naquele quadro típico e interessantíssimo.

Parte III

Durante dez dias. Cada ano, Mulundús é uma povoação de mais de duzentas barracas, habitadas por gente de todas as classes sociais.

Um pouco fora do perímetro, alojam-se dúzias de ciganos, exercendo o seu eterno negócio de trocar animais. Pelas ruelas de palhoças veem-se mulheres bem-vestidas e gente maltrapilha.

Dentro das casinhas, abrigam-se famílias, negociantes de toda espécie de mercadorias e no meio do borborinho, não faltam casinholas de mulheres de má vida. Cavaleiros estão frenquentemente experimentando alimárias e o pó que fazem subir espalha-se por ta parte a ponto de as folhas verdes tronarem-se cor de cobre. Constantemente transitam romeiros e na porta da capela grande e sem nenhuma arte sentam-se dezenas de pobres cegos, estropiados, doentes e gente de abrigo. Muitas vezes, por dia, ouvem-se sons de instrumento de música e mais que tudo as harmônicas e sempre francamente harmoniosas e provocantes que os sertanejos aprendem a executar com muita felicidade. Soldados rondam o acampamento e concorrem muito para a boa ordem que felizmente reina por toda parte. Apeando-me fui recebido pelos companheiros que riam do meu atraso e de nada valeu explicar que toda a vida fui mau cavaleiro. O almoço não tardou. E num encanto aquele repasto sobre uma mesa sólida numa varanda coberta de palha, quase ao ar livre e pouco longe do buliço popular de Mulundús.

O arcebispo na cabeceira e aos lados três padres e um seminarista formavam um ótimo convívio, em animada conversação e a mais completa cordialidade. À tardinha, fomos à capela e vendo-nos rodeados de algumas centenas de romeiros. D. Otaviano subiu ao palanque púlpito e fez um curto sermão de abertura da Missão.

Após entrarmos na capela constatamos o grande concurso de devotos cantando, rezando, dando esmolas e conversando.

Rezamos o terço e, fazendo o povo voltar ao largo, a multidão avolumou-se e Frei Ângelo pregou um longo sermão, ouvido com grande atenção. A massa, como um rio lento e invencível, conseguiu penetrar na ermida, assistiu ao canto das ladainhas acompanhado por bonita orquestra e à bênção do Santíssimo Sacramento. Como remate da cerimônia, centenas de vozes cantaram um bendito popular e os padres viram-se cercados de dúzias  de romeiros pedindo a confissão. E começou o vozeiro e começaram as frases que se não podem esquecer:
- Eu só me confesso com pade de barba!
- Os que não tem barba também num são pade?
- Mas os barbados são muito conseeiro!
- Aquele pade novo já sabe confessá a gente!
- Pru qui não? Todo pade qui diz missa sabe confessá!
- O pade barbado diz domisobisque ôiando p'ra baixo.
- É pra num vê muié pintada: mode num tê raia na missa.
Houve um certo reboliço no corredor da capela. Algumas pessoas apressaram-se. Mons. Dourado interveio e o corredor ficou e o corredor ficou quase deserto. Duas pretas magras e dentuças voltaram falando:
- Foi a Dizidera qui deu uma pilora?
- Não. Foi o cachorro que mijou no vestido dela e ela se pôs a xingá!

Parecendo-me que a conversa iria longe mandei que se calassem. As duas se retiraram com tanta pressa que uma parte da assistência, desconfiada, tomou o rumo do ar livre quase correndo. Alguns cegos cantavam na porta e uma serigaita passeava, bancando meneios de serpente e exibindo sapatos de salto muito alto. Formou-se, ao redor da sujeita, um grupo de ironistas que ela supôs admiradores. Infelizmente a serigaita pisou num pedaço de cano de zinco, perdeu o equilíbrio e caiu para trás soltando um estrépito, cujo som fez todos da roda se entreolharem galhofeirosamente.
Um cigano que retirava da boca a ponta do cigarro, gritou:
- Tá bom! - E retirou-se tapando as narinas com a mão esquerda e gesticulando exageradamente com a direita. O Álvaro, elebérrimo sacristão do Mons. Dourado, que acabara de espanar o palanque púlpito, saltou exclamando:
- Tá dito! - E muscou-se, levando o lenço ao nariz, fingindo o maior espanto. O sineiro subiu a escada do sino, mas, vendo a cena do cigarro e do Álvaro, deu duas voltas no corpo e berrou:
- Tá certo! - E correu para a casa dos padres, rindo desesperadamente. Dois rapazinhos vendedores de doce, imitando os três ironizantes correram de banda, exclamando:
- O tempo tá de rasgá! - E puseram-se a dançar malevolamente, tapando o nariz com as abas do jaleco. A infeliz levantou-se de um pulo, dizendo sem grito:
- Isto só sendo arte do diacho! - E barafustou para trás da igreja, praguejando, raivosa e envergonhada. E eu me convenci de que em toda parte há um pedaço de comédia.

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