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A Casca Dourada E Inútil Das Horas - Anderson Lima

Por: Anderson Lima Em: 10/08/2018

"Nada em mim está pronto, dado de antemão, acabado. Tudo em mim se encontra por fazer, assim construo e reconstruo a existência, repetindo sem passividade, mas tudo como fonte de eternidade." Søren Aabye Kierkegaard  

A dinâmica da vida é incrível, rebuscada de beleza e sabedoria, o ser humano protagonista da existência e dotado de sentidos e não se acostumando com a passagem monótona dos dias, reinventa-se e inventa as horas e os ponteiros.   

Como sabemos, há duas formas de medir o tempo, uma delas foi inventada pelos homens que amavam os números e os cálculos matemáticos, e o chamaram de Chronos. A outra foi inventada pelos poetas-filósofos que sabiam que a vida não podia ser apreciada por números, calendários e batidas do relógio. E o definiram como Kairós. Para quem tem olhos e alma de poeta a vida só pode ser medida com afeto e pelas artérias do coração, com gestos de amor. 

Na mitologia o tempo é explicado pela figura de dois deuses: Chronos e Kairós. Chronos é o cronômetro, a lógica dos números e dos ponteiros do relógio. O tempo é o medidor de nossas angústias, ele transforma tudo em suavidade ou em furacão. Chronos é o tempo estimável, cronometrado pelo relógio, caracterizando a defluência dos dias e das noites, das estações do ano, a passagem de um ano a outro. O tempo cronológico é opressor e a cada ciclo nos apresenta a dinâmica da finitude. Por ser matemátizado, Chronos nos remete à racionalidade, às coisas palpáveis e superficiais.   

O Kairós destaca-se do Chronos. Kairós é o momento eterno no tempo, aqui o tempo é um fruto que pode ser degustado, é belo, é colorido, é perfumado. É o tempo que marca o amor pelas batidas do coração, a quebra da rotina da temporalidade, quando vivido com intensidade, transforma tudo o que é efêmero e transitório em eternidade.   

Fernando Pessoa, um dia pensando sobre o tempo escreveu: "há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." A vida, assim como, a poesia, é realidade que transcende o Chronos e se renova no Kairós.   

Para o filósofo grego, Heráclito, não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; pois as águas sempre estão em constante movimento. Para ele tudo é movimento, "devir". Assim é a vida, tempo que se reinventa sem parar. Portanto, "Carpe Diem", aproveite o dia, pois o tempo é curto demais pra quem precisa dele, mas para quem ama ele dura para sempre.   

Por conseguinte, pensando em nossa realidade, na correria do mundo atual, o que vem em meu coração é um sentimento desagradável, uma sensação de está preso, acorrentado ao Chronos, aos milésimos e minutos do relógio e perdendo a motivação de experienciar, de viver o tempo da graça, do encontro com a alegria e a beleza da simplicidade.   

As pessoas desprovidas de sensibilidade passam com o tempo, são devoradas pelo Chronos, uma pena, mas passam. Muitas já passaram, foram-se com os ponteiros do relógio, o tempo encarregou-se de levá-las. O Kairós não tolera superficialidades. Sejamos sábios, saboreadores da vida, pois ela, (a vida) não é para ser medida pelos segundos e milésimos, é para ser saboreada com tranquilidade.   

Que mesmo nos atropelos do dia a dia a gente possa encontrar tempo para amar, para exercitar a gentileza, para florir de coisas boas a vida dos que caminham conosco, sem agendar. Que aprendamos todos os dias a sintonizar a nossa frequência com a música da felicidade. Da afabilidade, da esperança. Da fé. Do ímpeto que as pessoas agradáveis fazem fluir dentro da gente.  Porque a vida só é possível reinventada, reincidida todos os dias.

Assim sendo, como disse Mário Quintana: "Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas. Não deixe de fazer algo que gosta, devido a falta de tempo, pois a única falta que terá será desse tempo que infelizmente não voltará mais."

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